Ser Artista no País do Pandza: Entre o Sonho e a Sobrevivência
No imaginário coletivo, ser artista é sinónimo de brilho, talento e reconhecimento. Mas, no País do Pandza, essa percepção romântica rapidamente se desfaz diante da realidade dura que molda o percurso de quem ousa transformar música em missão de vida. A própria Tchakaze, no seu livro “Ser Artista No País do Pandza”, deixa evidente aquilo que muitos vivem, mas poucos têm coragem de dizer abertamente: “somos maphandanes como qualquer outro cidadão, tem que ter dois ou mais empregos.”
Essa afirmação, embora simples, carrega o peso de uma verdade profundamente enraizada no cenário artístico moçambicano. Ela não surge como reclamação, mas como constatação — fruto de anos de vivências, quedas, resistências e tentativas de manter viva a chama da criatividade num ambiente onde a arte raramente é vista como profissão legítima.
Tchakaze explica, com lucidez e coragem, que o artista no País do Pandza se encontra preso a um ciclo exaustivo de sobrevivência. Para garantir sustento, ele precisa dispersar a sua energia em batalhas paralelas, aceitar trabalhos alheios à sua essência e, muitas vezes, sufocar a própria arte para não sucumbir às necessidades do dia a dia. A música, que deveria ser o centro, torna-se periferia — sonho adiado, dom negligenciado, talento fragmentado.
Essa realidade impõe ao artista um dilema cruel: criar ou sobreviver? E, como sobrevivência não é escolha, mas obrigação, aquilo que deveria florescer acaba por murchar lentamente. O palco, que deveria ser lugar de plenitude, torna-se ocasional. O estúdio, que deveria ser casa, transforma-se em luxo. A inspiração, que deveria ser abundante, passa a ser racionada entre turnos, compromissos e cansaços.
No entanto, apesar desse cenário, o País do Pandza continua a produzir talentos, ritmos e narrativas únicas. O que demonstra que, mesmo quando as estruturas não favorecem, o espírito criativo moçambicano insiste em se manifestar. Mas a pergunta permanece: até quando o artista precisará dividir-se em dois, três ou quatro para conseguir ser um?
Ao expor essa realidade, Tchakaze não busca vitimização, mas consciência. Ela ilumina os bastidores para que o público possa compreender que, atrás de cada música que vibra nas ruas, há uma história de luta. Que por detrás de cada refrão animado há um artista que, muitas vezes, só consegue criar depois de um dia inteiro de maphandá.
Ser artista no País do Pandza é, acima de tudo, ser resistente. Mas não deveria ser apenas isso. O país sonha, dança e vive ao som de ritmos criados por pessoas que merecem mais do que sobrevivência: merecem condições para serem artistas plenamente.
Enquanto essa mudança não chega, a verdade permanece clara, dura, e necessária nas palavras de Tchakaze: “ser só artista não basta.”
E talvez, repetir essa frase seja o primeiro passo para transformá-la.
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